Doe seu livro preferido.
Aumente a sua história.
Partilhe a experiência.
Pertença à Biblioteca de Afectos
Um lugar de encontros
Da vida das pessoas além das páginas.

Inclua no seu livro uma dedicatória ao futuro leitor

Agora no Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro

Gostaria de se juntar à Biblioteca de Afectos como doador?

Como enviar o seu livro preferido?

Pessoalmente: na sala do Núcleo Experimental de Educação e Arte do MAM-RJ
Pelo correio: Biblioteca de Afectos | Núcleo Experimental de Educação e Arte | Museu de Arte Moderna
Av Infante Dom Henrique 85- Parque do Flamengo | 20021-140 Rio de Janeiro - Brasil
contacto:(21) 2240-4948
(21) 7143-3150| 8030-0136

quinta-feira, 16 de dezembro de 2010

Com o microfone ligado para o mundo: Momentos BA com o NEEA| MAM


(microfone ligado)


(o primeiro encontro: oficina em volta das palavras e imagens)





















imagens, textos e pensamentos compostos por cada um dos participantes durante nosso encontro:



(Daniela Camargo)

A Proposta:

Partindo de um ponto negativo:As "Imagens lixo", aquelas que servem apenas de suporte, como um veículo para sustentar uma ideia, campanha publicitária, mensagem, objectivo concreto e atendendo o seu resgate de pré-definições, atendendo que elas valem mais, merecem mais.Encontra-se beleza e até o sublime, nesse caminho exploratório percorrido entre imagens, e na devolução ao espaço da sua liberdade,  retirando-as do seu contexto executivo-informativo, e esse deslocamento do olhar anuncia-se com rigor, silêncio e lentidão outra dimensão. Qual?

Pegando um microfone que emite para o ar reflexões suas , ou valores, no mais importante, que diria?

Seleccionamos um arquivo de imagens que nos afectam (positiva e/ou negativamente ao indizível) e reflectimos em volta dos primeiros livros que chegaram à BA.







“Na Natureza, nada
Recria teu corpo”

Invento; o movimento da existência

(Virgínia Mota) 









"Quinzão é um menino bem criado do Flamengo. Estuda num colégio particular da Rua das Laranjeiras. Sempre passa
por Quinzim, que toca no Largo do Machado todos os dias. Fica apreciando o garoto mas não tem nenhuma vocação para a música. Simplesmente gosta de ouvir. Um dia Quinzão não resistiu à curiosidade e ficou fazendo perguntas a Quinzim:
_Onde você mora?
_Eu não tenho casa. De noite eu durmo numa marquise da Rua Machado de Assis e gurdo minha sanfona na barraca de Seu João, um coroa que vende frutas.”

(Pedro Ernesto de Araújo)


“Buscas desmedidas...alcançadas ou não...desigualdades..

desigualdades
                           desigualdades
desigualdades


desigual
da
des

(Mara Pereira)







“para mim
fotografar um palhaço
é terrível
ver um homem
não ver a criança
para mim
fotografar um palhaço
foi terrível
ver a maquilhagem
não me ver criança
para mim
é terrível
fotografar um palhaço
não ser criança
para ver que a fantasia..já se foi”

(Marco C.)

“quero ser sempre alegre como uma criança. Não quero passar a vida a fotografar. Quero viver cada momento, aproveitar cada instante. Guardar na minha memória todas as imagens e momentos inesquecíveis que vivi. Quero ver as caras. Gosto de conhecer e ver pessoas”

(Felisa Perez)








“Meu pai diz que os homens de hoje são assim: todos iguais, mas o de baixo aguentam os que estão em cima”

(Mafalda)


“O afeto movimenta a vida”

(Bebel Kastrup)






“Talvez não seja possível resolver o problema, filosóficamente. Mas praticamente é fácil..Também se a gente demonstra que o movimento não existe e a gente anda...anda...anda...dizemos a nós mesmos como Galileu: E pur, si mueve”
(Ionesco)

“Eu lhe prometo, assim como a mim mesmo. Você quer vir comigo esta tarde ao Museu?”


“Que o vento sopre todos para o mesmo lugar”

(Aoleo)








“A imaginação é mais importante do que o saber...e fiz uma brincadeira. Botei um pouco de inocência na erudição. E vi as borboletas. Vi que elas dominam o mais leve sem precisar de ter motor nenhum no corpo. E vi que elas podem pousar nas flores e nas pedras sem magoar as próprias asas. E vi que o homem não tem soberania nem pra ser um Bem-te-vi”.

(Manoel de Barros)

 “Lute pelo futuro! Com a imaginação voe com as borboletas! Seja para o palneta como o Bem-te-vi. Vire a página da erudição, além da terra, não esqueça de brincar sem magoar as próprias asas. Lembre do futuro, seja leve..”

(Guilherme Vergara)









“A alma colorida de um passarinho”
in Bem-te-vi


“Tecendo o afeto no mundo, hoje, quais são as possibilidades?

(Jacqueline Paschoal)









“Não temas andar devagar; receia apenas ficar parado”
Kung-fu chinês

“Pensar nos outros não é perder a nossa identidade”

Anderson Lopes








“Quero da sombra clara a sua alma transparente”

“É como abraçar o vento (...) Desenhar ligando as pintas do corpo”

(Anita Sobar)







“As palavras são muito ditas
E o mundo muito pensado”

(Cecília Meireles)


 “É preciso sentir os silêncios, os espaços vazios e interseções porque dentro deles a abundância também fica guardada”

(Bárbara Silveira)








“Propor um movimento além
da rede e da espera”
(Adriano Menezes)


 “Do vazio à angústia a originalidade não é garantida.”

(Pablo Sobreira)







“As obras expostas aludem a um vasto espectro de relações”


“Viva o skate arte!!!”
 (Alexandre “Palito”)







“Abri a janela e o coração. O sol inundou o quarto e o amor inundou a minha alma”

(Paulo Coelho)


“Pare e recomece”

(Ivan Santiago)


------------------------------------------------------------

Agora,que pensaria em volta destas imagens?
Partilhe, 

segunda-feira, 13 de dezembro de 2010

Biblioteca no NEEA|MAM_ Os livros começaram a chegar

No primeiro dia desenvolveu-se um exercício sobre texto e imagem, sua construção e experiência em três níveis do deslocamento do olhar.


























sábado, 11 de dezembro de 2010

Invento: O movimento de existir.

Photo de Leo Lopes



"Naquele dia, no meio do jantar, eu contei que tentara pegar na bunda do vento - mas o rabo do vento escorregava muito e eu não consegui pegar. Eu teria sete anos. A mãe fez um sorriso carinhoso para mim e não disse nada. Meus irmãos  deram gaitadas me gozando. O pai ficou preocupado e disse que eu tivera um vareio de imaginação. Mas que esses vareios acabariam com os estudos. E me mandou estudar em livros. Eu vim. E logo li alguns tomos havidos na biblioteca do Colégio.  E dei de estuda pra frente. Aprendi a teoria das idéias e da razão pura. Especulei filósofos e até cheguei aos eruditos. Aos homens de grande saber. Achei que os eruditos nas suas altas abstrações se esqueciam das coisas simples da terra. Foi aí que encontrei Einstein (ele mesmo - o Alberto Einstein). Que me ensinou esta frase : A imaginação é mais importante do que o saber.  Fiquei alcandorado! E fiz uma brincadeira. Botei um pouco de inocência na erudição. Deu certo. Meu olho começou a ver de novo as pobres coisas do chão mijadas de orvalho. E vi as borboletas. E meditei sobre as borboletas. Vi que elas dominam o mais leve sem precisar de ter motor nenhum no corpo. (Essa engenharia de Deus!) E vi que elas podem pousar nas flores e nas pedras sem magoar as próprias asas. E vi que o homem não tem soberania nem pra ser um bentevi.”


Manoel de Barros; "Memórias Inventadas - A Terceira Infância", Editora Planeta - São Paulo, 2008, tomo X.

segunda-feira, 6 de dezembro de 2010

Definição geral dos afetos de Spinoza



"O afeto, que se diz pathema (paixão) do ânimo, é uma idéia confusa, pela qual a mente afirma a força de existir, maior ou menor do que antes, de seu corpo ou de uma parte dele, idéia pela qual, se presente,  a própria mente é determinada a pensar uma coisa em vez de outra.

Explicação. Digo, em primeiro lugar, que o afeto ou a paixão do ânimo é uma idéia confusa. Mostramos, com efeito, que a mente padece apenas à medida que tem idéias inadequadas, ou seja, confusas (veja-se a prop. 3). Digo, além disso, pela qual a mente afirma a força de existir, maior ou menor do que antes, de seu corpo ou de uma parte dele. Com efeito todas as idéias que temos dos corpos indicam antes o estado atual de nosso corpo ( pelo corol.2 da prop. 16 da P.2) do que a natureza do corpo exterior. Ora, a idéia que constitui a forma de um afeto deve indicar ou exprimir o estado do corpo ou de alguma de suas partes, estado que o próprio corpo ou alguma de suas partes tem porque sua potência de agir ou sua força de existir é aumentada ou diminuída, estimulada ou refreada. É preciso observar, entretanto, que, quando digo força de existir, maior ou menor que antes, não compreendo com isso que a mente compara o estado presente do corpo com os anteriores, mas, sim, que a idéia que constitui a forma de um afeto afirma, a respeito do corpo, algo que envolve, de facto, mais ou menos realidade do que antes. E como a essência da mente consiste (pelas prop. 11 e 13 da P. 2) em afirmar a existência atual de seu corpo, e como por perfeição compreendemos a própria essência de uma coisa, segue-se que a mente passa a uma maior ou menor perfeição quando lhe acontece afirmar, de seu corpo ou de qualquer de suas partes, algo que envolve mais ou menos realidade do que antes. Quando, pois, disse, anteriormente, que a potência de pensar da mente era aumentada ou diminuída, não quis dizer senão que a mente formava, de seu corpo ou de alguma de suas partes, uma idéia que expressava mais ou menos realidade do que a que antes afirmava a respeito de seu corpo. Pois a superioridade das idéias e a potência atual de pensar avaliam-se pela superioridade do objeto. Acrescentei, enfim, pela qual, se presente, a mente é determinada a pensar uma coisa em vez de outra, a fim de exprimir também, além da natureza da alegria e da tristeza, que é explicada na primeira parte da definição, a natureza do desejo. "
[...]
Spinoza, Benedictus de. Ética. Tradução de Tomaz Tadeu. Belo Horizonte: Autêntica Editora, 2009. p.152


Biblioteca de Babel de Jorge Luis Borges



«By this art you may contemplate
the variation of the 23 letters...»
The Anatomy of Melancholy,
 part 2, sect. II, mem. IV


O universo (a que outros chamam a Biblioteca) compõe-se de um número indefinido, e talvez infinito, de galerias hexagonais, com vastos poços de ventilação no meio, cercados por parapeitos baixíssimos. De qualquer hexágono vêem-se os pisos inferiores e superiores: interminavelmente. A distribuição das galerias é invariável. Vinte estantes, a cinco longas estantes por lado, cobrem todos os lados menos dois; a sua altura, que é a dos pisos, mal excede a de uni bibliotecário normal. Uma das faces livres dá para um estreito saguão, que vai desembocar noutra galeria, idêntica à primeira e a todas. À esquerda e à direita do saguão há dois gabinetes minúsculos. Um permite dormir de pé; o outro, satisfazer as necessidades fecais. Por aí passa a escada em espiral, que se afunda e se eleva a perder de vista. No saguão há um espelho, que fielmente duplica as aparências. Os homens costumam inferir desse espelho que a Biblioteca não é infinita (se o fosse realmente, para que serviria esta duplicação ilusória?); eu prefiro sonhar que as superfícies polidas representam e prometem o infinito... A luz provém de umas frutas esféricas que têm o nome de lâmpadas. Há duas em cada hexágono: transversais. A luz que emitem é insuficiente, incessante.
Tal como todos os homens da Biblioteca, viajei na minha juventude; peregrinei em busca de um livro, se calhar do catálogo dos catálogos; agora que os meus olhos quase não conseguem decifrar o que escrevo, preparo-me para morrer a poucas léguas do hexágono em que nasci. Morto, não faltarão mãos piedosas que me atirem pela balaustrada; a minha sepultura será o ar insondável; o meu corpo precipitar-se-á longamente até se corromper e dissolver no vento gerado pela queda, que é infinita. Eu afirmo que a Biblioteca é interminável. Os idealistas argumentam que as salas hexagonais são uma forma necessária do espaço absoluto, ou pelo menos da nossa intuição do espaço. Consideram que é inconcebível uma sala triangular ou pentagonal. (Os místicos pretendem que o êxtase lhes revela uma câmara circular com um grande livro circular de lombada contínua, que dá toda a volta das paredes; mas o seu testemunho é suspeito; as suas palavras, obscuras. Esse livro cíclico e Deus.) Basta-me por agora repetir a clássica sentença: «A Biblioteca é uma esfera cujo centro cabal é qualquer hexágono, e cuja circunferência é inacessível.»
A cada uma das paredes de cada hexágono correspondem cinco prateleiras; cada prateleira contém trinta e dois livros de formato uniforme; cada livro é de quatrocentas e dez páginas; cada página, de quarenta linhas; cada linha, de umas oitenta letras de cor negra. Também há letras na lombada de cada livro; estas letras não indicam nem representam o que dirão as páginas. Sei que esta incongruência já chegou aparecer misteriosa. Antes de resumir a solução (cuja descoberta, apesar das suas trágicas projecções, é talvez o facto capital da história) vou rememorar alguns axiomas.
O primeiro: A Biblioteca existe ab aeterno. Desta verdade cujo corolário imediato é a eternidade futura do mundo, nenhuma mente razoável pode duvidar. O homem, o imperfeito bibliotecário, pode ser obra do acaso ou dos demiurgos malévolos; o universo, com a sua elegante dotação de estantes, de tomos enigmáticos, de infatigáveis escadas para o viajante e de latrinas para o bibliotecário sentado, só pode ser obra de um deus. Para perceber a distância que existe entre o divino e o humano, basta comparar estes rudes símbolos trémulos que a minha falível mão garatuja na capa de um livro, com as letras orgânicas do interior: pontuais, delicadas, negríssimas, inimitavelmente simétricas.
O segundo: «O número de símbolos ortográficos é vinte e cinco». Foi esta observação que permitiu ,há trezentos anos, formular uma teoria geral da Biblioteca e resolver satisfatoriamente o problema que nenhuma conjectura tinha ainda decifrado: a natureza informe e caótica de quase todos os livros. Um, que o meu pai viu num hexágono do circuito quinze noventa e quatro, constava apenas das letras M C V perversamente repetidas da primeira linha até à última. Outro (muito consultado nesta zona) é um simples labirinto de letras, mas a penúltima página diz «Oh tempo as tuas pirâmides.» Já se sabe: por uma linha razoável ou uma notícia correcta há léguas de insensatas cacofonias, de embrulhadas verbais e de incoerências. (Sei de uma bárbara região cujos bibliotecários repudiam o vão e supersticioso costume de procurar sentido nos livros e o equiparam ao de procurá-lo nos sonhos ou nas linhas caóticas da mão... Admitem que os inventores da escrita imitaram os vinte e cinco símbolos naturais, mas afirmam que essa aplicação é casual e que os livros em si nada significam. Esta opinião, como veremos, não é totalmente falaciosa.)
Durante muito tempo julgou-se que esses livros impenetráveis correspondiam a línguas pretéritas ou remotas. É verdade que os homens mais antigos, os primeiros bibliotecários, usavam uma linguagem bastante diferente da que falamos agora; é verdade que poucas milhas à direita a língua é dialectal e que noventa pisos mais acima é incompreensível. Tudo isto, repito, é verdade, mas quatrocentas e dez páginas de inalteráveis M C V não podem corresponder a nenhum idioma, por mais dialectal ou rudimentar que seja. Houve quem insinuasse que cada letra podia ter influência sobre a seguinte e que o valor de M C V na terceira linha da página 71 não era o que pode ter a mesma série noutra posição de outra página, mas esta vaga tese não prosperou. Outros pensaram em criptografias; universalmente, aceitou-se esta conjectura, embora não no sentido em que a formularam os seus inventores.
Há quinhentos anos, o chefe de um hexágono superior[1] deu com um livro tão confuso como os outros, mas que tinha quase duas folhas de linhas homogéneas. Mostrou o seu achado a um decifrador ambulante, que lhe disse que estavam redigidas em português; outros disseram-lhe que era iídiche. Em menos de um século conseguiu-se estabelecer o idioma: um dialecto samoiedo-lituano do guarani, com inflexões de árabe clássico. Também se decifrou o conteúdo: noções de análise combinatória, ilustradas por exemplos de variações com repetição ilimitada. Estes exemplos permitiram que um bibliotecário de génio descobrisse a lei fundamental da Biblioteca. Este pensador observou que todos os livros, por muito diferentes que sejam, constam de elementos iguais: o espaço, o ponto, a vírgula, as vinte e duas letras do alfabeto. Também acrescentou um facto que todos os viajantes têm confirmado: «Não há, na vasta Biblioteca, dois livros idênticos.» Destas premissas incontroversas deduziu que a Biblioteca é total e que as suas estantes registam todas as possíveis combinações dos vinte e tal símbolos ortográficos (número, embora vastíssimo, não infinito) ou seja, tudo o que nos é dado exprimir: em todos os idiomas. Tudo: a história minuciosa do futuro, as autobiografias dos arcanjos, o catálogo fiel da Biblioteca, milhares e milhares de catálogos falsos, a demonstração da falácia desses catálogos, a demonstração da falácia do catálogo verdadeiro, o evangelho gnóstico de Basílides, o comentário desse evangelho, o comentário do comentário desse evangelho, o relato verídico da tua morte, a versão de cada livro em todas as línguas, as interpolações de cada livro em todos os livros, o tratado que Beda pode ter escrito (e não escreveu) sobre a mitologia dos Saxões, os livros perdidos de Tácito.
Quando se proclamou que a Biblioteca abrangia todos os livros, a primeira impressão foi de extravagante felicidade. Todos os homens se sentiram senhores de um tesouro intacto e secreto. Não havia problema pessoal ou mundial cuja eloquente solução não existisse: nalgum hexágono. O universo estava justificado, o universo bruscamente usurpou as dimensões ilimitadas da esperança. Naquele tempo falou-se muito das Reabilitações: livros de apologia e de profecia, que para sempre reabilitavam os actos de todos os homens do universo e guardavam arcanos prodigiosos para o seu porvir. Milhares de cobiçosos abandonaram o doce hexágono natal e lançaram-se pelas escadas acima, impelidos pelo vão propósito de encontrar a sua Reabilitação. Estes peregrinos brigavam nos corredores estreitos, proferiam obscuras maldições, estrangulavam-se nas escadas divinas, atiravam os livros enganadores para o fundo dos túneis, morriam defenestrados pelos homens de regiões remotas. Outros enlouqueceram... As Reabilitações existem (eu vi duas que se referem a pessoas do futuro, a pessoas porventura não imaginárias), mas os pesquisadores não se lembravam que a possibilidade de um homem achar a sua, ou alguma pérfida variação da sua, se pode computar à volta do zero.
Também se esperou então o esclarecimento dos mistérios básicos da humanidade: a origem da Biblioteca e do tempo. É verosímil que estes graves mistérios possam explicar-se por palavras: se não bastar a linguagem dos filósofos, a multiforme Biblioteca deve ter produzido o idioma inaudito que se requer, bem como os vocabulários e gramáticas desse idioma. Há já quatro séculos que os homens não dão descanso aos hexágonos... Há pesquisadores oficiais, inquiridores. Vi-os no desempenho da sua função: chegam sempre esgotados; falam de um escadote sem degraus que quase os matou; falam de galerias e de escadas com o bibliotecário; algumas vezes, pegam no livro mais próximo e folheiam-no, em busca de palavras infames. Visivelmente, ninguém espera descobrir nada.
     À desaforada esperança, como é natural, sucedeu-se uma depressão excessiva. A certeza de que alguma prateleira nalgum hexágono continha livros preciosos e de que esses livros preciosos eram inacessíveis, pareceu quase intolerável. Uma seita blasfema sugeriu que cessassem as buscas e que todos os homens misturassem letras e símbolos, até construírem, por meio de um improvável dom do acaso, esses livros canónicos. As autoridades viram-se obrigadas a promulgar ordens severas. A seita desapareceu, mas na minha infância vi homens velhos que longamente se ocultavam nas latrinas, com uns discos de metal num covilhete proibido, e fracamente imitavam a divina desordem.
Outros, pelo contrário, acreditaram que a prioridade era eliminar as obras inúteis. Invadiam os hexágonos, exibiam credenciais nem sempre falsas, folheavam com tédio um volume e condenavam estantes inteiras: ao seu furor higiénico e ascético deve-se a insensata perda de milhões de livros. O seu nome é execrado, mas quem deplora os «tesouros» que o seu frenesi destruiu descura dois factos notórios. Um: a Biblioteca é de tal forma enorme que toda a redução de origem humana se torna infinitésima. Outro: cada exemplar é único, insubstituível, mas (como a Biblioteca é total) há sempre várias centenas de milhares de fac-símiles imperfeitos: de obras que só diferem por uma letra ou por uma vírgula. Contra a opinião geral, atrevo-me a supor que as consequências das depredações cometidas pelos Purificadores foram exageradas pelo terror que esses fanáticos provocaram. Impelia-os o delírio de conquistar os livros do Hexágono Carmesim: livros de formato menor que os naturais; omnipotentes, ilustrados e mágicos.
Também sabemos doutra superstição daquele tempo: a do Homem do Livro. Nalguma estante de algum hexágono (pensaram os homens) deve existir um livro que seja a chave e o resumo perfeito de todos os outros: deve haver algum bibliotecário que o tenha estudado e seja análogo a um deus. Na linguagem desta zona hão-de persistir ainda vestígios do culto desse funcionário remoto. Fizeram-se muitas peregrinações à procura d'Ele. Durante um século percorreram em vão os mais diversos rumos. Como localizar o venerado hexágono secreto que o alojava? Alguém propôs um método regressivo: Para localizar o livro A, consultar previamente um livro B que indique o sítio de A; para localizar o livro B, consultar previamente um livro C, e assim por diante até ao infinito... Foi em aventuras destas que desperdicei e consumi os meus anos de vida. Não acho inverosímil que nalguma estante do universo haja um livro total[2]; rogo aos deuses ignorados que um homem — um só que seja, há milhares de anos! — o tenha examinado e lido. Se não forem para mim a honra e a sabedoria e a felicidade, que sejam para outros. Que o céu exista, mesmo que o meu lugar seja o inferno. Que eu seja ultrajado e aniquilado, mas que num instante, num ser, a Tua enorme Biblioteca se justifique.
Afirmam os ímpios que o disparate é normal na Biblioteca e que o razoável (e até a humilde e pura coerência) é uma quase milagrosa excepção. Falam (eu sei-o) da «Biblioteca febril, cujos fortuitos volumes correm o incessante risco de se transformarem noutros e que tudo afirmam, negam e confundem como uma divindade que delira». Estas palavras que não só denunciam a desordem, mas também a exemplificam, provam de maneira notória o seu péssimo gosto e a sua desesperada ignorância. Com efeito, a Biblioteca inclui todas as estruturas verbais, todas as variações que permitem os vinte e cinco sinais ortográficos, mas não um único disparate absoluto. Não vale a pena observar que o melhor volume dos muitos hexágonos que administro se intitula Trono penteado, e outro A cãibra de gesso e outro Axaxaxas mlö. Essas propostas, à primeira vista incoerentes, sem dúvida são susceptíveis de uma justificação criptográfica ou alegórica; essa justificação é verbal e, ex hypothesi, já figura na Biblioteca. Não posso combinar uns caracteres Dhcmrlchtdj que a divina Biblioteca não haja previsto e que nalguma das suas línguas secretas não contenham um terrível sentido. Ninguém pode articular uma sílaba que não esteja plena de ternuras e de temores; que não seja nalguma dessas linguagens o nome poderoso de um deus. Falar é incorrer em tautologias. Esta epístola inútil e palavrosa já existe num dos trinta volumes das cinco prateleiras de um dos incontáveis hexágonos — e também a sua refutação. (Um número n de linguagens possíveis usa o mesmo vocabulário; numas, o símbolo biblioteca admite a correcta definição ubíquo e duradouro sistema de galerias hexagonais, mas biblioteca é pão ou pirâmide ou outra coisa qualquer, e as sete palavras que a definem têm outro valor. Tu que me lês, tens a certeza de que compreendes a minha linguagem?)
     A escrita metódica distrai-me da presente condição dos homens. A certeza de que está tudo escrito anula-nos ou envaidece-nos. Conheço distritos onde os jovens se ajoelham diante dos livros e lhes beijam barbaramente as páginas, mas não sabem decifrar uma única letra. As epidemias, as discórdias heréticas, as peregrinações, que inevitavelmente degeneram em banditismo, têm dizimado a população. Creio já ter mencionado os suicídios, de ano para ano cada vez mais frequentes. Talvez me enganem a velhice e o temor, mas tenho a suspeita de que a espécie humana — a única — está prestes a extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta.
    Acabo de escrever infinita. Não intercalei este adjectivo por um hábito retórico; digo que não é ilógico pensar que o mundo é infinito. Quem o julga limitado, postula que em lugares longínquos os corredores e escadas e hexágonos podem inconcebivelmente cessar — o que é absurdo. Quem o imagina sem limites, esquece que os tem o número possível de livros. Atrevo-me a insinuar esta solução do antigo problema: A biblioteca é ilimitada e periódica. Se um eterno viajante a atravessasse em qualquer direcção, verificaria ao cabo dos séculos que os mesmos volumes se repetem na mesma desordem (que, repetida, seria uma ordem: a Ordem). A minha solidão alegra-se com esta elegante esperança[3].

Mar da Prata, 1941.



[1] Dantes, para cada três hexágonos havia um homem. O suicídio e as doenças pulmonares destruíram esta proporção. Memória de indescritível melancolia: já cheguei a viajar muitas noites por corredores escadas polidas sem encontrar um único bibliotecário.

[2] Repito: basta que um livro seja possível para existir. Só está excluído o impossível. Por exemplo: nenhum livro é também uma escada, embora sem dúvida haja livros que discutem e negam e demonstram essa possibilidade, e outros cuja estrutura corresponde à de uma escada.

[3] Letizia Álvarez de Toledo observou que esta vasta Biblioteca é inútil: rigorosamente, bastaria um único volume, de formato comum, impresso em corpo nove ou em corpo dez, que constasse de um número infinito de folhas infinitamente finas. (Cavalieri nos princípios do século XVII disse que todo o corpo sólido é a sobreposição de um número infinito de planos.) O manejo desse vade-mécum sedoso não seria cómodo: cada folha aparente desdobrar-se-ia noutras análogas; a inconcebível folha central não teria reverso.

quinta-feira, 2 de dezembro de 2010

para todas e para todos

Era um buraco pequeno azul no tampo da mesa branca.
Quando vi melhor era um mapa imenso de todas as cores e lá ao longe estava quieto um baú que abri e nele entrei. Dei-me conta por causa disso, estar no interior desse silêncio, que lá fora, chovia. Havia uma luz de chuva, daquela fina que quebra na janela quando se olha com muita atenção. Quando saí, estava um lagarto de 14 anos caminhando lento e sacudindo a língua para fora e para dentro sem parar. Ali passeavam muitas pessoas só que por acaso ninguém viu. Ri-me disto e fui embora. Sempre que penso naqueles dois morros negros juntos por uns fios fortes lembro do lagarto verde-escuro de 14 anos, e pergunto-me que coisas ele terá visto?