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sábado, 23 de abril de 2011

Fundo do Mar

                                                                                          Fundo do mar


No fundo do mar há brancos pavores,
Onde as plantas são animais
E os animais são flores.

Mundo silencioso que não atinge
A agitação das ondas.
Abrem-se rindo conchas redondas,
Baloiça o cavalo-marinho.
Um polvo avança
No desalinho
Dos seus mil braços,
Uma flor dança,
Sem ruído vibram os espaços.

Sobre a areia o tempo poisa
Leve como um lenço.

Mas por mais bela que seja cada coisa
Tem um monstro em si suspenso.



Sophia de Mello Breyner Andresen
Obra Poética I
Caminho
 

sexta-feira, 8 de abril de 2011

Alocução a meninos de Albert Einstein



‎"MESTRES E ALUNOS

É tarefa essencial do professor despertar a alegria de trabalhar e de conhecer.
Caros meninos, como estou feliz por vê-los hoje diante de mim, juventude alegre de um país ensolarado e fecundo. Pensem que todas as maravilhas, objetos de seus estudos, são a obra de muitas gerações, uma obra coletiva que exige de todos um esforço entusiasta e um labor difícil e impreterível. Tudo isto, nas mãos de vocês, se torna uma herança. Vocês a recebem, respeitam-na, aumentam-na e, mais tarde, irão transmiti-la fielmente à sua descendência. Deste modo somos mortais imortais, porque criamos juntos obras que nos sobrevivem.
Se refletirem seriamente sobre isto, encontrarão um sentido para a vida e para seu progresso. E o julgamento que fizerem sobre os outros homens e as outras épocas será mais verdadeiro."


A. Einstein, in Como Vejo o Mundo.







segunda-feira, 21 de fevereiro de 2011

A Cabeça Bem Feita_E.Morin





Escolas da descoberta de si, em que o adolescente pode reconhecer sua vida subjetiva na dos personagens de romances ou filmes. Pode descobrir a manifestação de suas aspirações, seus problemas, suas verdades, não só nos livros de idéias, mas também, e às vezes mais profundamente, em um poema ou um romance. Livros constituem “experiências de verdade”, quando nos desvendam e configuram uma verdade ignorada, escondida, profunda, informe, que trazemos em nós, o que nos proporciona o duplo encantamento da descoberta de nossa verdade na descoberta de uma verdade exterior a nós, que se acopla a nossa verdade, incorpora-se a ela e torna-se a nossa verdade. E o que ocorre freqüentemente com obras como Uma temporada no inferno, que – conforme a extraordinária frase de Heráclito sobre o oráculo de Delfos – “não afirma, não esconde, mas sugere”. Que beleza favorecer tais descobertas!

MORIN. 2003 p.48 e 49

sexta-feira, 18 de fevereiro de 2011

A importância do ato de ler: Paulo Freire

Rara tem sido a vez, ao longo de tantos anos de prática pedagógica, por isso política, em que me tenho permitido a tarefa de abrir, de inaugurar ou de encerrar encontros ou congressos.
Aceitei fazê-lo agora, da maneira, porém, menos formal possível. Aceitei vir aqui para falar um pouco da importância do ato de ler.
Me parece indispensável, ao procurar falar de tal importância, dizer algo do momento mesmo em que me preparava para aqui estar hoje; dizer algo do processo em que me inseri enquanto ia escrevendo este texto que agora leio, processo que envolvia uma compreensão crítica do ato de ler, que não se esgota na decodificação pura da palavra escrita ou da linguagem escrita, mas que se antecipa e se alonga na inteligência do mundo. A leitura do mundo precede a leitura da palavra, daí que a posterior leitura desta não possa prescindir da continuidade da leitura daquele. Linguagem e realidade se prendem dinamicamente. A compreensão do texto a ser alcançada por sua leitura crítica implica a percepção das relações entre o texto e o contexto. Ao ensaiar escrever sobre a importância do ato de ler, eu me senti levado - e até gostosamente - a “reler” momentos fundamentais de minha prática, guardados na memória, desde as experiências mais remotas de minha infância, de minha adolescência, de minha mocidade, em que a compreensão crítica da importância do ato de ler se veio em mim constituindo.
Ao ir escrevendo este texto, ia “tomando distância” dos diferentes momentos em que o ato de ler se veio dando na minha experiência existencial. Primeiro, a “leitura” do mundo, do pequeno mundo em que se movia; depois, a leitura da palavra que nem sempre, ao longo de minha escolarização, foi a leitura da “palavramundo”.
A retomada da infância distante, buscando a compreensão do meu ato de “ler” o mundo particular em que me movia - e até onde não sou traído pela memória -, me é absolutamente significativa. Neste esforço a que me vou entregando, re-crio, e re-vivo, e no texto que escrevo, a experiência vivida no momento em que ainda não lia a palavra. Me vejo então na casa mediana em que nasci, no Recife, rodeada de árvores, algumas delas como se fossem gente, tal a intimidade entre nós - à sua sombra brincava e em seus galhos mais dóceis à minha altura eu me experimentava em riscos menores que me preparavam para riscos e aventuras maiores. A velha casa, seus quartos, seu corredor, seu sótão, seu terraço - o sítio das avencas de minha mãe -, o quintal amplo em que se achava, tudo isso foi o meu primeiro mundo. Nele engatinhei, balbuciei, me pus de pé, andei, falei. Na verdade, aquele mundo especial se dava a mim como o mundo de minha atividade perceptiva, por isso mesmo como o mundo de minhas primeiras leituras. Os “textos”, as “palavras”, as “letras” daquele contexto - em cuja percepção me experimentava e, quanto mais o fazia, mais aumentava a capacidade de perceber - se encarnavam numa série de coisas, de objetos, de sinais, cuja compreensão eu ia apreendendo no meu trato com eles, nas minhas relações com meus irmãos mais velhos e com meus pais.
Os “textos”, as “palavras”, as “letras” daquele contexto se encarnavam no canto dos pássaros - o do sanhaçu, o do olho-pro-caminho-quem-vem, o do bem-te-vi, o do sabiá; na dança das copas das árvores sopradas por fortes ventanias que anunciavam tempestades, trovões, relâmpagos; as águas da chuva brincando de geografia: inventando lagos, ilhas, rios, riachos. Os “textos”, as “palavras”, as “letras”, daquele contexto se encarnavam também no assobio do vento, nas nuvens do céu, nas suas cores, nos seus movimentos; na cor das folhagens, na forma das folhas, no cheiro das flores - das rosas, dos jasmins -, no corpo das árvores, na casca dos frutos. Na tonalidade diferente de cores de um mesmo fruto em momentos distintos: o verde da manga-espada, o verde da manga-espada inchada; o amarelo esverdeado da mesma manga amadurecendo, as pintas negras da manga mais além de madura. A relação entre estas cores, o desenvolvimento do fruto, a sua resistência à nossa manipulação e o seu gosto. Foi nesse tempo, possivelmente, que eu, fazendo e vendo fazer, aprendi a significação da ação de amolegar.
Daquele contexto faziam parte igualmente os animais - os gatos da família, a sua maneira manhosa de enroscar-se nas pernas da gente, o seu miado, de súplica ou de raiva; Joli, o velho cachorro negro de meu pai, o seu mau humor, toda vez que um dos gatos incautamente se aproximava demasiado do lugar em que se achava comendo e que era seu - “estado de espírito”, o de Joli, em tais momentos, completamente diferente do de quando quase desportivamente perseguia, acuava e matava um dos muitos timbus responsáveis pelo sumiço de gordas galinhas de minha avó.
Daquele contexto - o do meu mundo imediato - fazia parte, por outro lado, o universo da linguagem dos mais velhos, expressando as suas crenças, os seus gostos, os seus receios, os seus valores. Tudo isso ligado a contextos mais amplos que o do mundo imediato e de cuja existência eu não podia sequer suspeitar.
No esforço de re-tomar a infância distante, a que já me referi, buscando a compreensão do meu ato de ler o mundo particular em que me movia, permitam-me repetir, re-crio, re-vivo, no texto que escrevo, a experiência vivida no momento em que ainda não lia a palavra. E algo que me parece importante, no contexto geral de que venho falando, emerge agora insinuando a sua presença no corpo destas reflexões. Me refiro a meu medo das almas penadas cuja presença entre nós era permanente objeto das conversas dos mais velhos, no tempo de minha infância. As almas penadas precisavam da escuridão ou da semi-escuridão para aparecer, das formas mais diversas - gemendo a dor de suas culpas, gargalhando zombeteiramente, pedindo orações ou indicando esconderijos de botijas. Ora, até possivelmente os meus sete anos, o bairro do Recife onde nasci era iluminado por lampiões que se perfilavam, com certa dignidade, pelas ruas. Lampiões elegantes que, ao cair da noite, se “davam” à vara mágica de seus acendedores. Eu costumava acompanhar, do portão de minha casa, de longe, a figura magra do “acendedor de lampiões” de minha rua, que vinha vindo, andar ritmado, vara iluminadora ao ombro, de lampião a lampião, dando luz à rua. Uma luz precária, mais precária do que a que tínhamos dentro de casa. Uma luz muito mais tomada pelas sombras do que iluminadora delas.
Não havia melhor clima para peraltices das almas do que aquele. Me lembro das noites em que, envolvido no meu próprio medo, esperava que o tempo passasse, que a noite se fosse, que a madrugada semiclareada viesse chegando, trazendo com ela o canto dos passarinhos “manhecedores”.
Os meus temores noturnos terminaram por me aguçar, nas manhãs abertas, a percepção de um sem-número de ruídos que se perdiam na claridade e na algazarra dos dias e que eram misteriosamente sublinhados no silêncio fundo das noites.
Na medida, porém, em que me fui tornando íntimo do meu mundo, em que melhor o percebia e o entendia na “leitura” que dele ia fazendo, os meus temores iam diminuindo.
Mas, é importante dizer, a “leitura” do meu mundo, que me foi sempre fundamental, não fez de mim um menino antecipado em homem, um racionalista de calças curtas. A curiosidade do menino não iria distorcer-se pelo simples fato de ser exercida, no que fui mais ajudado do que desajudado por meus pais. E foi com eles, precisamente, em certo momento dessa rica experiência de compreensão do mundo imediato, sem que tal compreensão tivesse dignificado malquerenças ao que ele tinha de encantadoramente misterioso, que eu comecei a ser introduzido na leitura da palavra. A decifração da palavra fluía naturalmente da “leitura” do mundo particular. Não era algo que se estivesse dando superpostamente a ele. Fui alfabetizado no chão do quintal de minha casa, à sombra das mangueiras, co palavras do meu mundo e não do mundo maior dos meus pais. O chão foi o meu quadro-negro; gravetos, o meu giz.

Por isso é que, ao chegar à escolinha particular de Eunice Vasconcelos, cujo desaparecimento recente me feriu e me doeu, e a quem presto agora uma homenagem sentida, já estava alfabetizado. Eunice continuou e aprofundou o trabalho de meus pais. Com ela, a leitura da palavra, da frase, da sentença, jamais significou uma ruptura com a “leitura” do mundo. Com ela, a leitura da palavra foi a leitura da “palavramundo”.
Há pouco tempo, com profunda emoção, visitei a casa onde nasci. Pisei o mesmo chão em que me pus de pé, andei, corri, falei e aprendi a ler. O mesmo mundo - primeiro mundo que se deu à minha compreensão pela “leitura” que dele fui fazendo. Lá, re-encontrei algumas das árvores da minha infância. Reconheci-as sem dificuldade. Quase abracei os grossos troncos - os jovens troncos de minha infância. Então, uma saudade que eu costumo chamar de mansa ou de bem comportada, saindo do chão, das árvores, da casa, me envolveu cuidadosamente. Deixei a casa contente, com a alegria de quem re-encontra gente querida.
Continuando neste esforço de “re-ler” momentos fundamentais de experiências de minha infância, de minha adolescência, de minha mocidade, em que a compreensão crítica da importância do ato de ler se veio em mim constituindo através de sua prática, retomo o tempo em que, como aluno do chamado curso ginasial, me experimentei na percepção crítica dos textos que lia em classe, com a colaboração, até hoje recordada, do meu então professor de língua portuguesa.
Não eram, porém, aqueles momentos puros exercícios de que resultasse um simples dar-nos conta da existência de uma página escrita diante de nós que devesse ser cadenciada, mecânica e enfadonhamente “soletrada”, em vez de realmente lida. Não eram aqueles momentos “lições de leitura”, no sentido tradicional desta expressão. Eram momentos em que os textos se ofereciam à nossa inquieta procura, incluindo a do então jovem professor José Pessoa. Algum tempo depois, como professor também de português, nos meus vinte anos, vivi intensamente a importância do ato de ler e de escrever, no fundo indicotomizáveis, com alunos das primeiras séries do então chamado curso ginasial. A regência verbal, a sintaxe de concordância, o problema da crase, o sinclitismo pronominal, nada disso era reduzido por mim a tabletes de conhecimentos que devessem ser engolidos pelos estudantes. Tudo isso, pelo contrário, era proposta à curiosidade dos alunos de maneira dinâmica e viva, no corpo mesmo dos textos, ora de autores que estudávamos ora deles próprios, como objetos a ser desvelados e não como algo parado, cujo perfil eu descrevesse. Os alunos não tinham que memorizar mecanicamente a descrição do objeto, mas apreender a sua significação profunda. Só apreendendo-a seriam capazes de saber, por isso, de memorizá-la, de fixá-la. A memorização mecânica da descrição do objeto não se constitui em conhecimento do objeto. Por isso é que a leitura de um texto, tomado como pura descrição de um objeto e feita no sentido de memorizá-la, nem é real leitura nem dela, portanto, resulta o conhecimento do objeto de que o texto fala.
Creio que muito de nossa insistência, enquanto professoras e professores, em que os estudantes “leiam”, num semestre, um sem-número de capítulos de livros, reside na compreensão errônea que às vezes temos do ato de ler. Em minha andarilhagem pelo mundo, não foram poucas as vezes em que jovens estudantes me falaram de sua luta às voltas com extensas bibliografias a ser muito mais “devoradas” do que realmente lidas ou estudadas. Verdadeiras “lições de leitura” no sentido mais tradicional desta expressão, a que se achavam submetidos em nome de sua formação científica e de que deviam prestas contas através do famoso controle de leitura. Em algumas vezes cheguei mesmo a ler, em relações bibliográficas, indicações em torno de que páginas deste ou daquele capítulo de tal ou qual livro deveriam ser lidas: “Da página 15 à 37”.
A insistência na quantidade de leituras sem o devido adentramento dos textos a ser compreendidos, e não mecanicamente memorizados, revela uma visão mágica da palavra escrita. Visão que urge ser superada. A mesma, ainda que encarnada desde outro ângulo, que se encontra, por exemplo, em quem escreve, quando identifica a possível qualidade de seu trabalho, ou não, com a quantidade de páginas escritas. No entanto, um dos documentos filosóficos mais importantes de que dispomos, As teses sobre Feuerbach, de Marx, tem apenas duas páginas e meia…

Parece importante, contudo, para evitar uma compreensão errônea do que estou afirmando, sublinhar que a minha crítica à magicização da palavra não significa, de maneira alguma, uma posição pouco responsável da minha parte com relação à necessidade que temos educadores e educandos de ler, sempre e seriamente, de ler os clássicos neste ou naquele campo do saber, de nos adentrarmos nos textos, de criar uma disciplina intelectual, sem a qual inviabilizamos a nossa prática de professores e estudantes.
Dentro ainda do momento bastante rico de minha experiência como professor de língua portuguesa, me lembro, tão vivamente quanto se ela fosse de agora e não de um ontem bem remoto, das vezes em que me demorava na análise de textos de Gilberto Freyre, de Lins do Rego, de Graciliano Ramos, de Jorge Amado. Textos que eu levava de casa e que ia lendo com os estudantes, sublinhando aspectos de sua sintaxe estritamente ligados ao bom gosto de sua linguagem. Àquelas análises juntava comentários em torno de necessárias diferenças entre o português de Portugal e o português do Brasil.
Venho tentando deixar claro, neste trabalho em torno da importância do ato de ler - e não é demasiado repetir agora -, que meu esforço fundamental vem sendo o de explicitar como, em mim, aquela importância vem sendo destacada. É como se eu estivesse fazendo uma “arqueologia” de minha compreensão do complexo ato de ler, ao longo de minha experiência existencial. Daí que eu tenha falado de momentos de minha infância, de minha adolescência, dos começos de minha mocidade e termine agora re-vendo, em traços gerais, alguns dos aspectos centrais da proposta que fiz no campo da alfabetização de adultos há alguns anos.
Inicialmente me parece interessante reafirmar que sempre vi a alfabetização de adultos como um ato político e um ato de conhecimento, por isso mesmo, como um ato criador. Para mim seria impossível engajar-me num trabalho de memorização mecânica dos ba-be-bi-bo-bu, dos la-le-li-lo-lu. Daí que também não pudesse reduzir a alfabetização ao ensino puro da palavra, das sílabas ou das letras. Ensino em cujo processo o alfabetizador fosse “enchendo” com suas palavras as cabeças supostamente “vazias” dos alfabetizandos. Pelo contrário, enquanto ato de conhecimento e ato criador, o processo de alfabetização tem, no alfabetizando, o seu sujeito. O fato de ele necessitar da ajuda do educador, como ocorre em qualquer relação pedagógica, não significa dever a ajuda do educador anular a sua criatividade e a sua responsabilidade na construção de sua linguagem escrita e na leitura desta linguagem. Na verdade, tanto o alfabetizador quanto o alfabetizando, ao pegarem, por exemplo, um objeto, como faço agora com o que tenho entre os dedos, sentem o objeto, percebem o objeto sentido e são capazes de expressar verbalmente o objeto sentido e percebido. Como eu, o analfabeto é capaz de sentir a caneta, de perceber a caneta, de dizer caneta, mas também de escrever caneta e, conseqüentemente, de ler caneta. A alfabetização é a criação ou a montagem da expressão escrita da expressão oral. Esta montagem não pode ser feita pelo educador para ou sobre o alfabetizando. Aí tem ele um momento de sua tarefa criadora.
Creio desnecessário me alongar mais, aqui e agora, sobre o que tenho desenvolvido, em diferentes momentos, a propósito da complexidade deste processo. A um ponto, porém, referido várias vezes neste texto, gostaria de voltar, pela significação que tem para a compreensão crítica do ato de ler e, conseqüentemente, para a proposta de alfabetização a que me consagrei. Refiro-me a que a leitura do mundo precede sempre a leitura da palavra e a leitura desta implica a continuidade da leitura daquele. Na proposta a que me referi acima, este movimento do mundo à palavra e da palavra ao mundo está sempre presente. Movimento em que a palavra dita flui do mundo mesmo através da leitura que dele fazemos. De alguma maneira, porém, podemos ir mais longe e dizer que a leitura da palavra não é apenas precedida pela leitura do mundo mas por uma certa forma de “escrevê-lo” ou de “reescrevê-lo”, quer dizer, de transformá-lo através de nossa prática consciente.
Este movimento dinâmico é um dos aspectos centrais, para mim, do processo de alfabetização. Daí que sempre tenha insistido em que as palavras com que organizar o programa de alfabetização deveriam vir do universo vocabular dos grupos populares, expressando a sua real linguagem, os seus anseios, as suas inquietações, as suas reivindicações, os seus sonhos. Deveriam vir carregadas da significação de sua experiência existencial e não da experiência do educador. A pesquisa do que chamava de universo vocabular nos dava assim as palavras do Povo, grávidas de mundo. Elas nos vinham através da leitura do mundo que os grupos populares faziam. Depois, voltavam a eles, inseridas no que chamava e chamo de codificações, que são representações da realidade.
A palavra tijolo, por exemplo, se inseriria numa representação pictórica, a de um grupo de pedreiros, por exemplo, construindo uma casa. Mas, antes da devolução, em forma escrita, da palavra oral dos grupos populares, a eles, para o processo de sua apreensão e não de sua memorização mecânica, costumávamos desafiar os alfabetizandos com um conjunto de situações codificadas de cuja descodificação ou “leitura” resultava a percepção crítica do que é cultura, pela compreensão da prática ou do trabalho humano, transformador do mundo. No fundo, esse conjunto de representações de situações concretas possibilitava aos grupos populares uma “leitura” da “leitura” anterior do mundo, antes da leitura da palavra.
Esta “leitura” mais crítica da “leitura” anterior menos crítica do mundo possibilitava aos grupos populares, às vezes em posição fatalista em face das injustiças, uma compreensão diferente da sua indigência.
É neste sentido que a leitura crítica da realidade, dando-se num processo de alfabetização ou não e associada sobretudo a certas práticas claramente políticas de mobilização e de organização, pode constituir-se num instrumento para o que Gramsci chamaria de ação contra-hegemônica.
Concluindo estas reflexões em torno da importância do ato de ler, que implica sempre percepção crítica, interpretação e “re-escrita” do lido, gostaria de dizer que, depois, de hesitar um pouco, resolvi adotar o procedimento que usei no tratamento do tema, em consonância com a minha forma de ser e com o que posso fazer.
Finalmente, quero felicitar os idealizadores e os organizadores deste Congresso. Nunca, possivelmente, temos necessitado tanto de encontros como este, como agora.
Notas
(*) Trabalho apresentado na abertura no Congresso Brasileiro de Leitura, realizado em Campinas, nov. 1981.
Paulo Freire

sexta-feira, 4 de fevereiro de 2011

"Sonho com uma nova idade da curiosidade"

O FILÓSOFO MASCARADO


Permita-me, em primeiro lugar, perguntar-lhe porque escolhe o anonimato.
Imagino que você conheça a história daqueles psicólogos que apresentaram breve filme numa localidade no coração da África profunda. Pedem aos espectadores que narrem a história da forma como a entenderam. Pois bem, de um drama com três personagens, só uma coisa os havia interessado: a passagem das sombras e das luzes através das árvores.
Entre nós, os personagens ditam lei à percepção. Os olhos voltam-se preferivelmente para as figuras que vão e vêm, aparecem e desaparecem.
Por que lhe sugeri de usar o anonimato? Por saudades do tempo em que eu era absolutamente desconhecido e, portanto, aquilo que dizia tinha alguma possibilidade de ser entendido. O contato imediato com o eventual leitor não sofria interferências. Os efeitos do livro refletiam-se em lugares imprevistos e desenhavam formas a que nunca havia pensado. O nome constitui uma facilitação.
Gostaria de propor um jogo: o do "ano sem nome". Por um ano publicar-se-iam apenas livros sem o nome do autor. Os críticos deveriam haver-se com uma produção completamente anônima. Mas penso que, talvez, não teriam nada a dizer: todos os autores esperariam o ano sucessivo para publicarem os seus livros...
Você acredita que, hoje, os intelectuais falam demais? Que nos atrapalham com os seus discursos diante de qualquer mínimo pretexto e, muitas vezes, até mesmo sem pretexto algum?
A morte dos intelectuais parece-me um estranho conceito. Intelectuais, nunca os encontrei. Encontrei pessoas que escrevem romances e pessoas que curam os doentes. Pessoas que estudam economia e pessoas que compõem música eletrônica. Encontrei pessoas que ensinam, pessoas que pintam e pessoas de quem não entendi se faziam alguma coisa. Mas nunca encontrei intelectuais.
Pelo contrário, encontrei muitas pessoas que falam do intelectual. E, por escutá-los tanto, construí para mim uma idéia de que tipo de animal se trata. Não é difícil, é o culpado. Culpado um pouco de tudo: de falar, de silenciar, de não fazer nada, de meter-se em tudo... Em suma, o intelectual é a matéria-prima a julgar, a condenar, a excluir...
Não penso que os intelectuais falem demais, porque para mim não existem. Mas penso que o discurso sobre os intelectuais esteja passando do limite e seja pouco encorajante.
Tenho uma feia mania. Quando as pessoas falam tanto por falar, quando fazem discursos que ficam no ar, procuro imaginar onde levariam as suas palavras se fossem transcritas na realidade. Quando "criticam" alguém, quando "denunciam" as suas idéias, quando "condenam" o que escreve, imagino-os numa situação ideal em que têm pleno poder sobre ele. Reproduzo as suas palavras no primeiro significado: "demolir", "abater", "reduzir ao silêncio", "sepultar". E vejo abrir-se a radiante cidade em que o intelectual certamente seria prisioneiro e enforcado, com maior razão se fosse um teórico. É verdade, não vivemos em uma região em que os intelectuais são mandados ao diabo; mas, na realidade, diga-me, por acaso ouviu falar de um certo Toni Negri? Por acaso não está na prisão exatamente enquanto intelectual?
Mas, então, o que o levou a entrincheirar-se atrás do anonimato? Um certo uso publicitário que, hoje, certos filósofos fazem ou permitem fazer do seu nome?
Isto não me perturba minimamente. Nos corredores do meu liceu vi grandes homens de gesso. E agora, nas primeiras páginas dos jornais, em baixo, vejo a foto do pensador. Não sei se a estética melhorou. A racionalidade econômica seguramente, sim...
No fundo, impressiona-me profundamente uma carta escrita por Kant, quando já era muito velho: contra a idade, a visão que se reduzi e as idéias que se confundiam, apressava-se, assim narra, em terminar um livro para a feira do livro de Lípsia. Conto este episódio para demonstrar que não tem nenhuma importância. Publicidade ou não, feira ou não, o livro é coisa totalmente diferente. Nunca conseguirão levar-me a crer que um livro seja ruim porque se viu o seu autor à televisão. Mas nem sequer que seja bom só por este motivo.
Se escolhi o anonimato, não é para criticar isso ou aquilo, o que nunca faço. É um jeito de dirigir-me mais diretamente ao eventual leitor, o único personagem que me interessa: "já que não sabes quem sou, não sentirás a tentação de buscar os motivos pelos quais digo o que lês; deixa-te andar, diz simplesmente: é verdadeiro, é falso, gosto, não gosto. Isto basta".
Mas o público não espera que a crítica forneça juízos precisos sobre o valor de uma obra?
Não sei se o público espera que o crítico julgue as obras ou os autores. Mas creio que os juízes já estavam aí antes que o público pudesse dizer o que queria.
Parece que Courbet tinha um amigo que se acordava à noite urlando: "julgar, quero julgar". É incrível quanto as pessoas gostam de julgar. Julga-se em todo lugar, continuamente. Provavelmente, para a humanidade, é uma das coisas mais simples a fazer. Mas você sabe que o último homem, quando a última radiação houver reduzido o último adversário a cinzas, tomará uma mesa mal ajeitada, se sentará e começará o processo contra o responsável.
Não posso deixar de pensar em uma crítica que não procure criticar, mas fazer existir uma obra, uma frase, uma idéia; acenderia fogos, olharia a grama crescer, escutaria o vento e imediatamente tomaria a espuma do mar para a dispersar. Reproduziria, ao invés de juízos, sinais de vida; invocá-los-ia, arrancá-los-ia do seu sono. Quem sabe os inventaria? Tanto melhor, tanto melhor. A crítica sentenciosa faz-me adormentar; gostaria de uma crítica feita com centelhas de imaginação. Não seria soberana, nem vestida de vermelho. Traria consigo os raios de possíveis tempestades.
Há, porém, tantas coisas a conhecer, tantos trabalhos interessantes, que a mídia deveria falar todo o tempo de filosofia?
Certamente, entre a "crítica" e aqueles que escrevem livros existe um mal-estar de longa data. Uns não se sentem entendidos e outros acreditam que se queira fazer pressão sobre eles. Mas o jogo é este.
Parece-me que hoje a situação seja bastante particular. Temos instituições pobres, enquanto nos encontramos em situação de super-abundância.
Todos deram-se conta da exaltação que freqüentemente acompanha a publicação ( ou a reedição) de obras, que, aliás, às vezes são interessantes. Trata-se, sempre, de nada menos que a "subversão de todos os códigos", do "antagonista da cultura contemporânea", da "discussão radical de todo o nosso modo de pensar". O seu autor deve ser um marginal incompreendido.
Em compensação, não há dúvida de que os outros devam ser remetidos à obscuridade da qual nunca deveriam ter saído; não eram senão a espuma de "uma moda irrelevante", um simples produto institucional, etc.
Diz-se que se trata de um fenômeno parisiense e superficial. Contudo, eu percebo aí os efeitos de uma inquietação profunda. O sentimento do "nenhum lugar vazio", "ou ele ou eu", "um por vez". Está-se em fila indiana, por causa da extrema exigüidade de lugares em que se pode escutar e fazer-se ouvir.
Resulta daí uma espécie de angústia que irrompe em mil sintomas, mais ou menos curiosos. A partir disso, naqueles que escrevem, o sentimento da sua impotência diante da mídia, que é acusada de dominar o mundo dos livros e de dar existência ou de fazer desaparecer aqueles que agradam ou desagradam. A partir disso, nos críticos, o sentimento de conseguir fazer-se ouvir, a não ser que se levante o tom e se tire da cartola um coelho por semana. A partir disso, a pseudo-politização que mascara, sob a alegação da necessidade de mover uma "batalha ideológica" ou de acabar com os "pensamentos perigosos", a ânsia profunda de não ser lidos nem ouvidos. A partir disso, também a fobia fantástica do poder: cada pessoa que escreve exerce um poder inquietante a que se precisa pôr, se não um fim, pelo menos limites. A partir disso também a afirmação um pouco encantadora segundo a qual, atualmente, tudo é vazio, desolado, sem interesse e importância: afirmação que, evidentemente, provém daqueles que, não fazendo nada, pensam que os outros são supérfluos.
Mas não acredita que a nossa época é realmente sem espíritos à altura dos seus problemas e de grandes escritores?
Não, não acredito no refrão da decadência, da ausência de escritores, da esterilidade do pensamento, do horizonte negro e tétrico.
Creio, pelo contrário, que há uma abundância excessiva. E que não sofremos por causa do vazio, mas porque os meios para pensar em tudo o que acontece sejam demasiado poucos. Há muitíssimas coisas a conhecer: fundamentais, terríveis, maravilhosas ou estranhas, ao mesmo tempo minúsculas e capitais. Além disso, há uma curiosidade imensa, uma necessidade, um desejo de conhecer. Sempre lamentamos que a mídia embote a cabeça das pessoas. Nesta idéia há alguma misantropia. Acredito, pelo contrário, que as pessoas reagem: quanto mais se procura convencê-las, mais se interrogam. O espírito não é uma cera mole. É uma substância reativa. E o desejo de saber mais, melhor e diversamente, cresce à medida que se procura encher as cabeças.
Se isso for verdade e se acrescentarmos a isso que, na universidade e em outros lugares, se estão formando grandes quantidades de pessoas que podem servir de intermediários entre a massa de coisas e a avidez de saber, pode-se bem rapidamente deduzir que a desocupação dos estudantes é a coisa mais absurda que há. O problema consiste em multiplicar os canais, as passarelas, os meios de informação, as redes televisivas e as radiofônicas, os jornais.
A curiosidade foi um vício estigmatizado sucessivamente pelo Cristianismo, pela filosofia e até por uma certa concepção da ciência. Curiosidade, futilidade. Mesmo assim, a palavra me agrada. Sugere-me algo bem diferente: evoca a "cuidado", a atenção que se presta ao que existe ou poderia existir; um sentido agudo do real, que, porém, nunca se imobiliza diante disso; uma prontidão em julgar estranho e singular aquilo que nos circunda; uma certa obstinação em desfazer-se do que é familiar e em olhar as mesmas coisas de forma diferente; um ardor em colher o que acontece e aquilo que passa; uma desenvoltura com relação às hierarquias tradicionais entre o que é importante e o que é essencial.
Sonho com uma nova idade da curiosidade. Os meios técnicos existem; o desejo existe; as coisas a conhecer são infinitas; as pessoas que podem empenhar-se nesta tarefa existem. De que então sofremos? De escassez: canais estreitos, exígüos, quase monopolistas, insuficientes. Não se trata de adotar atitude protecionista para impedir que uma "má" informação invada e sufoque a "boa". Importa, pelo contrário, multiplicar os trajetos e as possibilidades de ir e vir. Nenhum colbertismo neste campo. O que não significa, como frequentemente se teme, uniformização e nivelamento por baixo. Significa, sim, diferenciação e simultaneidade de redes diferentes.
Imagino que, neste plano, a mídia e as universidades poderiam ter funções complementares, ao invés de continuarem a opor-se.
Você lembra a admirável frase de Sylvain Lévy: o ensino comporta um ouvinte; basta haver dois que se torna vulgarização. Também os livros, a universidade, as revistas cultas são mídia. Dever-se-ia evitar de chamar mídia os canais de informação aos quais não se pode ou não se quer ter acesso. Importa entender como fazer que as diferenças ajam; saber se devemos instaurar uma zona reservada, um "parque cultural" para as frágeis espécies dos cultos, ameaçados pelas grandes aves de rapina da informação, enquanto todo o resto do espaço seria um vasto mercado de bugigangas. Não me parece que semelhante repartição corresponda à realidade. Pior: não me parece de fato desejável. Para fazer que as diferenças úteis ajam não deve haver repartição alguma.
Procuremos fazer uma proposta concreta. Se tudo vai mal, onde se pode começar?
Não, não vai tudo mal. Em todo caso, creio que não se deve confundir a crítica construtiva contra as coisas com as jeremiadas repetitivas contra as pessoas. Com relação a propostas concretas, elas aparecem como "gadgets", se antes não forem precisados alguns princípios gerais. Este, em primeiro lugar: o direito ao saber não deve ser reservado nem a uma idade da vida, nem a certas categorias de indivíduos; se deve poder exercitá-lo ininterruptamente e de formas múltiplas.
Mas esta vontade de saber não é ambígua? Afinal, o que as pessoas farão com todo este saber que está adquirindo? A que pode servir?
Uma das funções principais do ensino consistia nisto: a formação do indivíduo caminhava no mesmo passo da determinação do seu lugar na sociedade. Hoje precisaríamos conceber o ensino de modo tal que permitisse ao indivíduo de se modificar a seu prazer; e isso é possível apenas sob a condição de que o ensino seja uma possibilidade oferecida "permanentemente".
Em suma, você é a favor de uma sociedade culta?
Digo que a vinculação com a cultura deve ser contínua e a mais polimorfa possível. Não deveria haver, por um lado, uma formação que se sofre e, por outro, uma informação a que se é submetido.
O que acontecerá, em uma sociedade culta, com a filosofia eterna?... Ainda temos necessidade dela, das suas interrogações sem resposta e dos seus silêncios diante do incognoscível?
O que é a filosofia senão um modo de refletir, não tanto sobre aquilo que é verdadeiro e aquilo que é falso, mas sobre a nossa relação com a verdade? Às vezes a gente se lamenta por não existir na França uma filosofia dominante. Muito melhor. Não há nenhuma filosofia soberana, é verdade, mas há uma filosofia ou, melhor, há filosofia em atividade. A filosofia é o movimento pelo qual nos libertamos – com esforços, hesitações, sonhos e ilusões – daquilo que passa por verdadeiro, a fim de buscar outras regras do jogo. A filosofia é o deslocamento e a transformação das molduras de pensamento, a modificação dos valores estabelecidos, e todo o trabalho que se faz para pensar diversamente, para fazer diversamente, para tornar-se outro do que se é. Sob este ponto de vista, os últimos trinta anos foram período de intensa atividade filosófica. A interferência entre a análise, a pesquisa, a crítica "culta" ou "teórica" e as mudanças no comportamento, a conduta real das pessoas, a sua maneira de ser, a sua relação consigo mesmas e com os outros, foi constante e considerável.
Há pouco dizia que a filosofia é um modo de refletir sobre a nossa relação com a verdade. É preciso acrescentar: é um modo de perguntar-se: se esta é a relação que temos com a verdade, como devemos comportar-nos? Creio que tenha sido feito e que se esteja continuando a fazer um trabalho considerável e múltiplo, que modifica, contemporaneamente, o nosso vínculo com a verdade e a nossa maneira de nos comportarmos. E isso em ligação complexa entre uma série de pesquisas e um conjunto de movimentos sociais. É a própria vida da filosofia.
É compreensível que alguns lastimem o vazio atual e busquem, na ordem das idéias, um pouco de monarquia. Mas aqueles que, pelo menos uma vez na própria vida, provaram um tom novo, uma nova maneira de olhar, um outro modo de fazer, aqueles, creio, nunca sentirão a necessidade de se lamentar porque o mundo é um erro, a história está farta de inexistências; é tempo para que os outros fiquem calados, permitindo assim que não se ouça mais o som da reprovação por parte deles...
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Le Philosophe masqué (entrevista de C. Delacampagne), em ‘Le Monde" n. 10945, de 06 de abril de 1980: "Le Monde-Dimanche", pp. I e XVII. Em janeiro de 1980, Christian Delacampagne decidiu pedir a Foucault uma longa entrevista para o suplemento dominical de "Le Monde", dedicado principalmente aos debates culturais. Foucault aceitou imediatamente, mas apresentou uma condição de princípio: a entrevista deveria ficar anônima, o seu nome não deveria aparecer e importava eliminar todos os indícios que teriam permitido identificar a sua pessoa. Foucault justificou esta posição da seguinte maneira: a cena intelectual tornou-se presa da mídia, as "estrelas" prevalecem sobre as idéias, e o pensamento como tal acaba não sendo reconhecido; conseqüência disso é que aquilo que se diz conta menos do que a personalidade de quem fala. E também este tipo de crítica com relação à "midiatização" corre o risco de ser menosprezada, caso for pronunciada por alguém que, sem querê-lo, já ocupa um lugar no sistema da mídia, como era o caso de Foucault. A fim de romper com semelhantes efeitos perversos e para tentar que fosse dita uma palavra que não pudesse ser aniquilada pelo fama do autor, convinha decidir-se a entrar no anonimato. A idéia agradou a Delacampgne. Acordaram que a entrevista fosse feita a um "filósofo mascarado", isento de uma precisa identidade. Faltava convencer "Le Monde", que queria uma entrevista com Foucault, a aceitar um texto de "ninguém". Foi difícil, mas Foucault mostrou-se inflexível.
O segredo foi conservado até a morte de Foucault. Parece que bem poucos conseguiram descobri-lo. Em seguida, "Le Monde" e a editora La Découverte concordaram em juntar em volume esta entrevista com outros textos do mesmo autor. Conforme acontece nestes casos, "Le Monde" decidiu unilateralmente revelar o verdadeiro nome do "filósofo mascarado". O texto da entrevista cabe integralmente a Foucault, que elaborou inclusive as perguntas, junto com Delacampagne, e reescreveu com muito cuidado cada resposta. (N.T)


FOUCAULT, Michel. Archivio Foucault. Vol. 3. Estetica dell’esistenza, etica, politica. A cura di Alessandro Pandolfi. Milano, Feltrinelli, 1994, pp. 137-144. Tradução portuguesa de Selvino José Assmann. Fpolis, setembro de 2000.

quarta-feira, 26 de janeiro de 2011

Jean D. Soares conversa com Virgínia Mota: sobre Biblioteca de Afetos



JDS_ Uma primeira boa pergunta: o que é a Biblioteca de Afetos (BA)?
VM_ Em maio de 2009, a BA começa por ser uma vontade de ver um novelo de linhas em movimento, por um lado a potenciação de um lugar de encontros e gestação de pensamento e na última instância um exercício de liberdade, em um espaço onde existiam pessoas sem livros. Entendido que os livros são uma espécie de motor que impele do individual para o todo, esse fio que se tece, era preciso estimular a extensão dele, fazê-lo e senti-lo. O afeto, como o gesto artístico está sempre no "entre", na brecha, ao mesmo tempo, na eminência do perigo, no risco, daquilo que não se controla, dando conta de uma teia onde os seres circulam, ainda que inconscientemente. Há interesse tornar visível, ou sensível, ainda que invisivelmente, esse tecido. Parecia também que, se havia a necessidade de uma Biblioteca, ainda que pequena, seria sempre num gesto de reorganização (resgatando aquilo que já existe no mundo e a propriedade de multiplicação). A pergunta era como, porquê e quais seriam esses livros que comporiam essa Biblioteca? Aprofundando essa questão a resposta já havia sido dada no óbvio: um livro, um autor, um leitor que doa e o futuro leitor, todos compõem essa biblioteca, é daí que se juntam os livros recomendados por um doador que o coloca na BA como gesto compartilhado, pelo grau de importância, numa inclinação afetiva. Posteriormente, esse movimento se torna no indizível a junção de várias camadas de relações que vale a pena se pensar. Nesse sentido talvez a BA tenha começado anteriormente.  
Eu havia deixado Portugal e a minha biblioteca, trazendo para o Brasil um único livro, dolorosa experiência já que esta adormeceu aí longínqua devolvendo em dobro a sua relevância- um sentimento de amputação que talvez me tenha esclarecido a consciência de sua dependência por um lado, e o meu profundo respeito por aquilo que os livros permitem- o tom confessional do pensamento decorrente das conversas íntimas que se escuta entre as páginas e a clarividência das horas “em que se é aquilo que se é”, a matéria desvelada pelo silêncio da leitura_ em um período de proficiência incrementado pelo de auto-suficiência.
Há uma dignidade escrita e reinventada com as palavras em um livro. Havia que ver renascido isso, nas crianças que conheci nesse lugar e que estavam na idade das primeiras palavras lidas, apreciar com elas outro tom sobre seu futuro, longe de qualquer missão, informação, simplesmente almejando uma certa subjetividade. Reuniram-se assim os primeiros 100 livros que viajaram desde Portugal, 100 autores, 100 doadores (que podem um dia reler ali o seu livro_ uma parte de cada pessoa doadora desloca-se já geograficamente), quantos futuros leitores? BA é esse manto composto. 

JDS_ Por que seriam motores os livros?
VM_ Os livros contêm já um motor que faz mover as palavras, quer no interior de si mesmas quanto entre elas, tanto o arquivo imagético possível ativado em cada leitor, então recriam linhas de fuga, curvas de nível, desvios, bifurcações, entroncamentos _na contra-capa de um bom livro inscreveu-se sutilmente: leia de novo, não pare.
A BA é uma espécie de fino tecido de linho (leve e maleável, uma vez estendidas as suas qualidades, e em termos de reorganização ou imbricação na natureza), ou seja, um plano re-desenhado e sustentado por imensos fios, sendo tecido por um motor conjunto cuja força motriz é o afeto (estrutura e corpo orgânico, não-maquínico). Todo o motor está entre uma relação de forças cuja atividade vital depende de uma dedicação física e mental, a propriedade do tecido depende da comunhão entre o que está tecendo e o corpo tecido. A BA vê ao longo de sua reorganização primeiramente a relação mais direta, a do próprio livro enquanto objeto: o que vai de um autor ao encontro com seu “leitor”, primeiro e último (porque todos juntos fazem outra espécie de olhar sobre o objeto, e esse olhar interessa bastante).  A BA torna então visível um rastro entre dois leitores, que se cruzam num intermédio (objeto_ desejo/participação afetiva), depois disso reúne-se uma conjuntura de leituras e nelas a capacidade de ação em espessuras de possíveis. Numa relação a nu, posta a descoberto (porque é partilhada publicamente e ainda em movimento), torná-la fisicamente presente, em um lugar (e não bastaria ser mais um lugar chamado de Biblioteca, onde livros pousam no silêncio dos tempos), notando que a realização dos livros é a circulação, sua concomitância na ocupação de territórios, sempre atingindo espaços de maior democratização, ela vai até onde quer ser recebida, e assim pontua um mapa afetivo, digamos: reside aí sua vocação.

JDS_ Sendo motores, o que faz dos livros um fio que tece encontro e pensamento no exercício da liberdade?
VM_ Ter nas mãos um livro que foi lido por alguém, um outro que não eu, escolhido e partilhado, interliga dois focos de atenção iniciais e soma sempre a cada dois, complementando um triângulo (quem escreve, quem lê e doa, quem lê posteriormente). Talvez esse triângulo venha a ser a base do próprio afeto no intermédio de um objeto, uma espécie de desenho de seu “DNA”. Não existimos sem o afeto e somos livres com ele, se o sentirmos e colocarmos em deslocamento, ele dar-nos-á distâncias e concretudes díspares de um entendimento geral para um centro específico de onde derivamos. Fazer desse deslocamento um movimento maior é um desafio ao ser. A liberdade reside no ponto em que se sente uma chamada para aumentar adentrando, como uma pergunta em lugar de uma resposta, o ponto específico de latência e não dormência ou atávico. O afeto não tem resposta, ele dialoga e impulsiona o momento a se tornar verdade e destrói aspectos passionais que não se refiram diretamente a ele. Pelo modo como entendo a definição de “afecto” em Spinoza, diria que a duração vem do afeto, ele faz durar e por ele, as coisas que amamos (em verdade e não convencionadas), as outras são “moda” que sucumbem a cada passagem. O objeto da arte dá conta disso na duração: conceitos reinventam-se, afetos conservam, (tecem na duração).

JDS_ Até que ponto os livros são motores que nos impeliriam do individual ao coletivo?
VM_ Todo o ser vivo é um ser coletivo e nesse sentido toda a arte é um ser vivo.
Muito dificilmente alguém algum dia deixará de encontrar um livro pelo qual nutra algum afeto e a primeira vez que tal ocorre torna-se inesquecível, é necessário que isso aconteça, uma afinidade com uma entidade humana exterior ao nosso âmbito pessoal de relações. Há um diferencial, um deslocamento pessoal que ocorre na duração de uma leitura (uma escuta). A BA promove diferentes tipos de deslocamento, opta-se chamá-los de encontros.
Muitas pessoas conhecem unicamente livros escolares e outras não foram à escola, (a pergunta é: porque só isso chega até elas como obrigatório?) as nossas oficinas/encontros em torno dos livros vão além disso, das leituras em voz alta ou baixa,  exploram-se todos os lados de um livro, aqui, porque esse objeto já almejou o seu momento com alguém anteriormente, esse é o pressuposto que aumenta seu valor, parece. A resposta estará talvez nos “entres”, entre dois, existe um lugar à disposição para explorar vários exercícios, outras linguagens, ou saberes, até mesmo gerando contradições: é a vocação da BA existir nesses hiatos, fazer notar, mapear as aparições dos “entre”, como um escorrimento de água, um caudal que acha novas fendas até desaguar numa corrente maior. O todo merece coletivos diversos e divergentes, fazem parte do mesmo mundo. A concepção ou a identidade se dão em processos de contradição, o leitor deixa de ser passivo (em certo sentido nunca o foi, ainda que se decida por uma não-ação) para ver-se uma outra vez. Por uma proposta específica de abertura dada por outrem, ruptura ou simplesmente ao ocupar-se de si mesmo, o leitor faz algo por relação a um objeto, oferecido por um outro desconhecido, que hipoteticamente se dirige a ele mesmo, em um livro, onde reside agora sua dedicatória. Esse movimento é singular, e eterno quando se torna coletivo. Não se dirige o afeto em relação ao afeto do outro mas junto com um objeto que diz de si, um indicador e uma nova pista afetiva. O movimento do afeto encarna, descarnando, pela mudança do olhar, no seu deslocamento. Sobre o espaço entre os livros, é preciso dar conta dele primeiramente e também esclarecer-se sobre que conceitos, porque nem sempre os de outrora bastarão agora. Há que reinventar as leituras, e as palavras somente não dão conta de tudo, mesmo assumindo que elas não se esgotam. Palavras não nasceram para se cristalizar, mas para o negócio, elas fazem parte do movimento-transformação, e ao mesmo tempo são mudas. Talvez por isso bibliotecas representem ainda silêncio (mudo), agora, o silêncio gerado em redor de um livro é já outra coisa e sobre isso talvez se possa fazer algo e já não falar, sobre o silêncio que deixa de ser mudo para ser silêncio revelador.
Nos intervalos das palavras, nos silêncios reveladores de silêncios, aparece aquilo que tem que aparecer.

JDS_ os afetos e a percepção do leitor relacionam-se de alguma maneira no espaço da Biblioteca? Qual é o gesto artístico do afeto no interior dela?
VM_ O afeto, como a obra de arte, é um ser vivo que se alimenta no próprio ser vivo e é assim que vejo a BA.
Recentemente conversei com alguém que havia visitado o meu país, cujo olhar incrédulo perante o visionado em viagem, contraposto ao conhecimento prévio, não se havia alterado, ou seja, no século XXI essa pessoa avistara somente os séculos antecedentes (pelo que havia lido dessas épocas). Inicialmente isso irritou-me, ri-me imaginando que este havia entrado em um avião e se deslocado em décadas, posteriormente perguntei-me se o conhecimento havia turvado o seu olhar, ou se, a verdade contida nas suas palavras não seria a verdade para ele e mais relevante do que aquilo que ele efetivamente contatara e não processado por mera exclusão de um desinteresse pessoal. Considerei ser criativo e curioso conversar com alguém que avistara o passado com seus olhos de agora. É “verdade aquilo que inventamos” dirá Manoel de Barros, que a poesia dá-nos verdade espacial entre as palavras e, no movimento proposto, um país é aquilo que o olhar diz que é. Sobre esse deslocamento e pensando em um mero exercício descritivo, dir-se-ia: um país é também aquilo que se descreve que ele é, a palavra é todos os países em todos os seus tempos indiscriminadamente; é além do que vemos, do que sabemos dela, o que se projeta diante do que esta faz sentir, o que nasce entre várias imagens divergentes em acordo de forças ou por linhas de fuga, mas sempre compromissadas e sempre sendo já uma outra coisa. E aí seria ser a própria coisa; um jogo de criança em W.Benjamin, devir mulher em G.Deleuze, uma incorporação da barata em C.Lispector, numa simples colocação do espelho na sala como viu V. Woolf: “nada permaneceu igual durante dois segundos”. O gesto sublinha afeto. A palavra é contida.

JDS_A biblioteca seria o espaço no qual estas intercessões apareceriam, partilhadas, enquanto livros, promotores de uma reorganização dos nossos afetos?
VM_A BA será uma espécie de promoção do deslocamento do que está já diante de nós_ no mundo. Ela redesenha como uma arquitetura que é conjecturada ou subjugada por linhas de força, construída unicamente para desembargar um movimento sem conteúdo estável, mas por onde este flua. Ela quer fazer durar fazendo transcorrer aquilo que dentro dela se transmuta e dá a ver_ ela quer cuidar e projetar-se como afeto-sustentável.(risos)

JDS_ O afeto pode ser entendido como essa intercessão entre o eu e um outro na qual circularíamos, dada uma simpatia inconsciente?
VM_ Pensemos na fala, como um exterior afetivo(da palavra dirigida entre pelo menos dois), durante muito tempo pode explorar-se a ferramenta “fala” como um brinquedo novo ou um jogo, depois dar-se conta que não seja assim tão necessária, que o uso excessivo esgota assim como cansa as próprias palavras, não dando conta do seu modo anterior, daquilo que impele. As palavras são uma espécie de patrimônio, o primeiro “brinquedo preferido” que permite achar o mundo diferente inúmeras vezes: onde se apontam tantas formas de apalavrar sem falar, descobre-se ainda que nem elas dizem tudo nem “eu” deva ser necessariamente o veículo próprio da fala e que se pode recriar objetos que desenvolvam as suas próprias falas internas, algo mais próximo ao tempo anterior e interior que as projeta, ou seja, mais próximo ao afeto em si. Há uma certa incompreensão das palavras por causa da fala, que gera uma urgência pelo silêncio, da não-fala, e a preciosidade da escuta no processamento do próprio pensamento das palavras. As pessoas demoram para se entender e se cansam, talvez por não se escutarem nesse processo, ou seja, no pensamento por cima e por baixo do texto que veiculam. Esse silêncio requer um processamento lento, sem os imediatismos do afeto que se quer exteriorizar rapidamente, por se treinar mais a fala que o uso potencial da palavra, talvez se acredite por isso realizar dentro dela e aí surja sua frustração.
“_Como quer que corte seu cabelo?_Em silêncio.”, contar-nos-ia Plutarco. Não seria necessário falar, mas ler: escutar o pensamento em silêncio. A arte pode ensinar, a não acrescentar mas retirar do mundo suas linhas de excesso, a fala em geral é uma excentricidade, um ruído, uma parafernália de caracteres e informações menores, poluentes. Como trabalhar retirando essas roupagens e sobretudo como articular essa experiência com outros? Em simplicidade, escavando. Agora, podemos escavar acompanhados, só que ninguém escava em lugar de outro. Esse processo coletivo é ainda mais lento mas possível.
Talvez o objeto belo ou sublime seja esse com o qual perdemos a fala e que exibe certa intangibilidade. Onde se reinventa o silêncio a cada tempo, tempo único capaz de definir a obra e apontar o afeto. A BA propõe lidar com o afeto como veículo para um adendo reflexivo, pessoal e coletivamente.

JDS_ A Biblioteca no silêncio dos tempos - dos livros em silêncio - é diferente de Biblioteca de Afetos - dos livros - motor. Você entende "que a vocação dos livros é a circulação e uma ocupação de território sempre em espaços de maior democratização". Como se dá a elaboração dos mapas afetivos dada a vocação dos livros - motor?
VM_ Um coletivo é já um mapa e teria que se incluir nele também o silêncio. Expressando-o assim rapidamente, diria que o silêncio pode ser atávico ou aquele que importa aqui: revelador do afeto, (talvez ele seja a sua linguagem, de onde nascem todas as coisas e daí distinguindo-o da fala, a mais célere, até chegar em todas as outras mais lentas, ditas artísticas). A BA lida bem com o silêncio que aceita como base para todas as ações decorrentes, ao mesmo tempo que perfura todas as outras bibliotecas que moram num silêncio incapaz. O momento é decisivo. A maneira como se faz notar esse silêncio. Há um silêncio mórbido em certas bibliotecas como se nada pudessem fazer, não o mórbido que vem do medo de morrer mas da suspeita de estar morto. Nelas estão forças que podem muito e são essas que precisam se libertar. Fazer acordar o espírito desse adormecido, ele depende de nós e nós dele.
Muitas bibliotecas reviveram seus espaços pós-internet e atingiram públicos maiores. Com a rápida democratização de acesso ao computador talvez valha a pena analisar a provável diminuição desses visitantes antes de voltar ao silêncio dos tempos. Vive-se um tempo em que as pessoas acreditam que tudo quanto precisam ter enquanto informação está na internet, que liberdade. O que fazer então com o tempo que sobra, com o que se poupa à procura de informação e o que fazer com os livros reais? As escolas que se viam numa demanda informativa precisam se repensar futuramente. O entendimento da disciplina mental, articulada, fundamentada pela procura do conhecimento talvez exija agora outra natureza, mais laboratorial. Precisa-se reinventar escola e biblioteca, juntas, absorvidas pelo afeto, o que sempre resta_ e a sua cultura_ reinventando-a, aqui e agora. Esse é um mapa bem maior, o do porvir.
Há que saber sentir aquilo que dura e restituir ao sublime a sua eminência para o acontecimento: a arte, a  dos livros, e até aquela que nasce das pedras.

JDS_ Ouço as palavras finais e me inquieto. Por que deveríamos buscar a informação desenfreadamente? Ou, qual é o fundamento de sua busca?
De fato, nossa civilização alcançou determinadas camadas por postular a angústia do conhecer, arrebatadora e charmosa, aclamada por tantos, nomeada como Filosofia. Com a virada dos séculos, o nascimento e configuração de uma ciência, a pretensa segurança desses caniços pensantes parece ter sido assegurada: a medicina “salva” vidas, a engenheira nos “leva” a qualquer lugar, a ciência “progride”. Mas ainda morremos e não sabemos (talvez nunca saibamos) até onde poderemos chegar. Informação para quem? Para quê? Para progredir? Progresso para quem e para onde? São linhas de excesso as que afirmam o progresso e esquecem que, finito, o homem tem seus horizontes limitados.
Em tempos de ambientalismos, perguntamo-nos sob sustentabilidade, sobre a necessidade de subsistir aqui, de manter a possibilidade de vidas por vir. Todo tempo, você fala de silêncio. Diferentes silêncios. Até aqui, são basicamente três: o silêncio mudo, passivo e morto de espaços infinitos que apavoram; os livros-motor nos conduziriam a um silêncio revelador que em outro momento da conversa parece com um silêncio ativo - espaço de circulação de subjetividades. Pensando nesse cenário, quais as possíveis consequências dos afetos-sustentáveis para a subjetividade de quem passa pela BA? E, o que torna a BA enquanto obra de arte, um objeto que questiona essas linhas de excesso, a se tornar linha de fuga, pista afetiva em meio ao terror linear e excessivo do progresso?
VM_ A informação é uma espécie de guarda-chuva, um filtro, e o que as pessoas procuram nem elas sabem ao certo, acreditam precisar de guarda-chuvas protetores, e não se pode falar em nome de ninguém. Parece que na maioria das vezes há que se dar conta de demandas específicas, controladas por um organismo não pensante e genérico, porém dominante. Todos os erros hoje são defendidos pelo “sistema”, ele se move no “erro” e talvez seja esse o seu principal motor, aquele que importa ver sempre com muita atenção. Enquanto alguém se ocupa numa resposta, uma ou mais perguntas ficam por se fazer sobre e subsistema. Ora, se o movimento-mundo, aquilo que o desvela são outras questões, alimentando um afunilamento destas, a experiência é aglutinada em uma espiral de desaparição, que apaga tudo e todos; quaisquer linhas de força que não sustentem respostas objetivas ficam omissas no sistema da informação, tudo deve ser apagado rapidamente já que não conseguiríamos conviver permanentemente com o próprio erro.
A BA quer ser exercício de questionamento sobre um substrato no silêncio dos suprimidos, dos espaços de sensibilidade sobre o visível mesmo, trazer elementos que intervenham nessa espiral e a possibilidade de ela ganhar outra dimensão, não necessariamente uma espiral mas diversos fios orgânicos, rizomas, desenhos subjetivos, sem finalidades à priori, das individualidades encobertas nos seus afetos.
O progresso defende unicamente as indústrias e estas pensam em grupos de pessoas, sistematização, números, ora, não dão conta do indivíduo, do pessoal, inclusive talvez por isso vivamos em um tempo onde o avanço das ciências ainda não deu conta da cura, mas tenha traçado unicamente um mapa específico de doenças e sequer “da doença”. Há que reverter isso no campo político que atende em uma diretriz, num único fio_ como um filho de pai autoritário e manipulador. A política não pode ser refém da doença, mas da cura.
Em exemplo, a política de estado hoje, não podendo atear-se à indústria alimentar (que em verdade é o principal causador de morte no mundo dito desenvolvido) havia que justificar-se, responsabilizar-se sobre esse problema. Cada um fica com a função de alimentar-se individualmente mediante a oferta possível no mercado dos alimentos, que se complementa com o farmacêutico. Acontece então abandonar-se a fonte, a origem do problema condenando a agricultura ao ostracismo.
A cura não é programa de vacinação, ou policiamento, vigilância pública ou sistemas prisionais. A democracia merece mais do que aquilo que projetamos para ela, ela carece de espaço de ação, de liberdade subjetiva e lugar de encontro de si mesma em relações desmedidas.
A lei precisa se reescrever a cada caso e esbarra-se nessa impossibilidade efetiva, em ter que dar conta desses guarda-chuvas individuais, em sistemas criados sob um olhar perfilado em hipótese para cada um como um grupo. A qualidade ambiental só será depurada em um ambiente humano individualmente sanado, talvez se faça necessário inventar outras formas porque essas conhecidas não respeitam toda a natureza daquilo que a lei pretende mapear. Caberia então à política dar conta daquilo que está entre os homens e não destes literalmente enquanto objetos dispostos nos campos assinalados.
Parece que existe uma espécie de nostalgia afetiva pela solidão, do silêncio de estar sozinho e uma incapacidade para tal, (a BA é uma chamada de atenção para isso), as pessoas não conseguem estar sozinhas e também nos coletivos elas não existem, os diálogos são constantemente interrompidos por ruídos maiores. Então, o estar, o ser sozinho em um grupo precisa ser vivenciado, gesticulado, exercitado, personificado ou mesmo exorcizado, no silêncio do acontecimento, e só ele pode reinventar o grupo em si. Há um esgotamento pela falta de visão, o olhar existe e não enxerga, acredito que ele anseia por um deslocamento pungente a cada instante (a arte é um poder sobre o deslocamento).
Vejamos, o sonho anual de cada pessoa é sair de férias e descansar, entram em sites ou em agências de viagens e compram paisagens em pacotes; pequenas parcelas de paraíso (sem ninguém), no fim chegam lá e deparam-se de novo com a multidão. Essa multidão, o excesso que esgota o lugar, vence imediatamente o paraíso, não o venderia enquanto imagem, mesmo sabendo disso na hora da compra, por um ínfimo momento, os “clientes da promessa do paraíso” acreditam que este existe e que é seu, não seu por direito mas como produto que podem e querem comprar: o ser sozinho na paisagem. Esse ser “sozinho na paisagem” é um bem permanente, um não-produto, inconscientemente as pessoas apreenderam-se numa multidão e não conseguem libertar-se desse fato embora se queixem como vítimas deste, diariamente. Na proliferação das “ciências esotéricas”, seitas religiosas, certas substâncias químicas, tenta-se reinventar essa promessa, mas elas existem debaixo dos mesmos guarda-chuvas. Nota-se certa tendência para circunscrever a experiência humana em currais, toda a hora se reinventam cercas e vende-se a promessa de uma existência fora delas. Há que fazer valer-se extrinsecamente um movimento de existência, em silêncio, porque fora dele o perigo de virar produto é enorme e rápido, o silêncio é contrário à instrumentalização de circunscrição, se ele deve tomar alguma forma então que seja uma fugidia e sagaz, que crie sua própria metodologia e isso, digamos, é processo de arte. A arte acontece fora dos mercados e precisa se imbuir em outras fontes que nada têm que ver com as chamadas indústrias criativas; “empresas” precisam da arte mas não a entendem, precisam de afeto mas tendem a ignorá-lo, neutralizam higienicamente seus espaços. Há que criar modelos indisciplinares que ao serem replicados sejam já outra coisa, um movimento outro que viva de intermédios, indefinições que multipliquem as suspeitas sobre o mundo.     

JDS_ Quando propus a pergunta sobre o que fazia dos livros, enquanto motores, fios que tecem encontro e pensamento no exercício da liberdade, a relação entre o tecer do encontro e a possibilidade de pensar ficou clara. Não aparece, no entanto, nenhuma resposta, positiva ou negativa, sobre o possível lugar da liberdade nesta relação. Surge aqui esta resposta quando passamos a pensar na BA como atividade criadora, obra de arte, linha de fuga, ser coletivo, lugar que cria e nutre um afeto-sustentável e, ainda, via de expansão das subjetividades?
VM_ Diria que, e para expressar rapidamente, à superfície, relações aparecem como limitações, afetos são vistos como constrangimentos e os processos criativos como anteriores às linguagens. De forma mais refletida, parecem indicar um método para ser sem “livro de instruções”. Teríamos que ler todos os livros escritos para compreender as incoerências de uma existência sem programa? Em um século incoerente ganham aqueles que notam seu espaço de liberdade efetivo: no ser incoerente, reflexo devolutivo de falhas e aí poder realmente ser. Sobre as fissuras haveríamos que agir antes de falar. O ser anterior manda mais mas só sobre um espaço de consciência individual para com o todo. As subjetividades são apenas uns portais de acesso às perguntas sobre o homem no exercício de si mesmo. A BA no seu todo será só um lugar de passagem reflexiva, indicador despretensioso de profundidades reveladoras na diversidade do ser quem é.